A comida


Madrastas, está na hora de encarar uma triste verdade. A vossa comida não presta. Quer sejam verdadeiras ninjas a manobrar facas de cerâmica apropriadas para cortes ancestrais de sashimi ou mulheres a quem a falta de empregada significa imediatamente ir jantar fora, a vossa comida não presta. Até podem jogar pelo seguro com a Bimby, pesquisar cinquenta sites que indiquem quais são os pratos apropriados para crianças  ou mesmo (terreno perigoso, atenção) perguntar à Pessoa Pequena quais são os seus pratos preferidos. A vossa comida vai continuar a não prestar.
Sabem aquela mania que têm que só gostam do empadão da vossa mãe ou do arroz de pimentos da vossa avó? As crianças são assim, mas sem a menor delicadeza ou o menor respeito pelos vossos sentimentos. Vocês vão continuar a comer empadão ou arroz de pimentos se alguém o servir, porque já estão civilizadas (e se não comerem é muito feio). As Pessoas Pequenas não. Não vai saber ao mesmo que elas mais gostam, por isso não comem. E o que é que elas mais gostam?
Já recebi as informações mais inesperadas a este respeito. Perante exasperações repetidas à hora do jantar – quando um quarto do prato é ingerido à velocidade do som e os restantes quartos são mais atrasados, negociados e desprezados que as conversações de paz no Médio Oriente – consegui obter alguma informação perturbadora e preciosa. Os pratos preferidos são massa com fiambre (?), puré com ovo mexido (??) e bacalhau cozido com batatas e ovo (???).
Eu devia ter percebido à primeira que estas informações indicavam o início do meu apocalipse culinário. Além de nem começar a entender o conceito de “massa com fiambre”, uma criança que gosta de comer bacalhau cozido já não entra em nenhuma categoria normal. Eu lutei saudavelmente contra o bacalhau cozido durante os primeiros 25 anos da minha vida e tudo correu bem (à excepção das ceias de Natal). Decidi apostar no puré. É algo que passei anos a aperfeiçoar e que tempero na perfeição. Pensei que um prato de almôndegas e puré me garantia a boa-vontade infantil durante o jantar. Um puré delicioso, com batatas novas e leite meio-gordo, cheio de noz-moscada raspada no momento e com a consistência perfeita. Não. Não presta. As almôndegas desaparecem, a salada de cenoura também e o puré fica inteirinho no prato.
“Mas não disseste que gostavas de puré?” “E gosto. Mas não deste. Este sabe a coisas que não são puré.” Entre arrancar os próprios cabelos ou ir enfiar a cabeça no congelador para refrescar as ideias, uma Madrasta sensata dirige-se à cozinha como se fosse happy hour. Respira, aceita que os temperos que demoram uma vida a melhorar são desperdiçados com pessoas cujo cume culinário é atingido com salsichas e volta para a sala. Para ouvir: “se quiseres, eu digo-te qual é o pacote do meu puré”.
A verdade é que a comida de uma Madrasta nunca vai prestar, porque simplesmente não é igual à da Mãe. 

o banho



Se há coisa que uma Mulher – seja ela Madrasta ou não – jamais há-de compreender é a resistência infantil ao banho. Para qualquer pessoa sensata, o banho é uma coisa boa, que, não fora a culpa ecológica e o tamanho da conta da água, tomaríamos várias vezes ao dia. Principalmente durante o Verão. Ajuda a relaxar, a espairecer, a ventilar, a desligar, a tranquilizar e acima de tudo, a cheirar bem.
Por isso, a aversão das Pessoas Pequenas ao banho é algo contra-natura. Ao fim do dia, as crianças cheiram mal. E estão hiper-estimuladas. Precisam de ser lavadas e da tranquilidade da água para acalmar. Passam o dia a correr de um lado para o outro, transpiram horrores, ficam exaustas, caem e enchem-se de pó, de nódoas, de folhas e de terra. Ainda bem que estão a reforçar os seus sistemas imunitários e a aproveitar o facto de serem crianças, mas a vontade de chegar a casa e transferir todo o seu suor e sujidade para os sofás e camas que encontram é algo que deve ser decididamente desencorajado. Não sei se já tentaram dar banho a um gato hidrofóbico ou se já tentaram lavar a cabeça a um cavalo, mas a técnica é muito semelhante.
As Pessoas Pequenas devem ser conduzidas a espaços confinados e estanques, de onde a sua fuga seja impossível. Devem ficar sem roupa rapidamente – embora isso não as impeça de tentar a fuga em pelota pelo corredor – e de imediato serem introduzidas na banheira/chuveiro. Assim que ficam molhadas, entendem que a água é uma coisa boa e, com a memória selectiva que as caracteriza, redescobrem que até gostam de tomar banho porque podem brincar.
Chegámos ao momento do maior paradoxo infantil: a partir do momento em que estão no banho e se lembram que afinal gostam, já não querem sair. O que, para qualquer Madrasta, é a garantia de uma hora de sossego para fazer o jantar e tratar de coisas em casa sem interferência. Mas depois de uma hora, temos de os tirar de lá, sob o risco de entrarem em hipotermia enquanto estão sob os nossos cuidados. Ninguém quer isso. Queremos crianças limpas, mas não em ambiente esterilizado. Tente-se tirar uma Pessoa Pequena do banho e enfrente-se a primeira grande dificuldade: não escorregar ao entrar na casa-de-banho. Se há certezas nesta vida, é a de que o chão vai estar encharcado e/ou a formar poças prontinhas para nos atirar ao chão. A segunda é tirar a criança debaixo de água, o que pode ou não envolver tácticas terroristas vergonhosas porém eficazes, tipo fechar a água quente. A terceira, é voltar muitas vezes a obrigá-la a tirar o resto do champô que está sempre no cabelo.
Consiga-se que elas vistam o pijama e se sentem sossegadas a fazer os trabalhos de casa ou a brincar, e é-se uma Madrasta feliz. Porém, o mais provável é que elas decidam provar que atravessam a casa à velocidade da luz e corram para trás e para a frente como se o diabo – ou o gel de banho – as perseguisse. Até ficarem num estado muito semelhante ao que estavam quando chegaram a casa. Esse é o momento em que uma Madrasta sensata se retira de cena enquanto chama pelo Pai. Ele, pelo menos, pode gritar.

o tempo

Uma Pessoa Pequena não entende o conceito de “Tempo”. Não esperam por nada e tentam adiar tudo. Quando lhes dizemos “5 segundos”, interpretam-no de forma literal e começam a contar em voz alta. “Daqui a bocadinho” pode ser uma hora ou um dia; “Já a seguir” é a seguir a uma série de coisas mais importantes, nomeadamente jogar à bola; ver desenhos animados; lanchar; investigar o frigorífico; esconderem-se naquele canto onde nós não chegamos; e fazerem aquela coisa que nem sabem soletrar: procrastinar.
Sempre que pedimos alguma coisa a uma Criança, temos de repetir o pedido, no mínimo, quatro vezes. São peritas a fingir que não ouvem e melhores ainda a repetir “Hã?” até sermos nós a ceder. Ceder, neste contexto, significa falar mais alto, perder a paciência, fazermos nós porque demora menos e outras hipóteses igualmente pouco pedagógicas. Porque, na cabeça delas, não há tempo.
A inexistência de Tempo  na vida infantil faz com que ele se flexibilize indefinidamente. É muito curto (se estiverem no parque a brincar) ou demasiado longo (se lhes dissermos que está na hora de dormir). Não chega nunca (se estiverem a jogar na playstation) ou é  demasiado aborrecido (se estiverem a caminho da casa dos avós). Tudo é já ou não é nada. E assim, o já parece prolongar-se para sempre quando estão a fazer algo contrariados, não só para eles como também para nós, tal o cansaço de responder à contínua rebelião.
O Tempo - que não conta nada para as Pessoas Pequenas - é tudo para as Madrastas, que aprendem a avaliar o seu de uma forma completamente diferente. Para elas, o tempo Com Crianças  (cC) parece que nunca mais acaba e o tempo Sem Crianças (sC) passa a voar. O tempo de explicar uma coisa 10 vezes parece um ano de vida que se perde e respectivos cabelos brancos que se ganha. O tempo de namorar no sofá fugiu, não se sabe para onde, só se sabe que não dá para o apanhar. O tempo que demora uma explicação mal-articulada ou uma anedota infinitamente contada faz-nos sentir crescer a relva debaixo dos pés. O Tempo, que não existe na dimensão que se cruza com a nossa, faz com que o nosso seja precioso demais para ignorar.

ficar magra


Após incursão fim-de-semanal com Pessoa Pequena à praia, os ventos sopraram, o mar afastou-se e um raio de sol iluminou-me num momento de pura epifania: ter crianças emagrece. Levar uma para a praia é muito mais eficaz que adoptar um pastor-alemão e ir correr todos os dias para o Guincho. A preocupação é maior, o desassossego também e a possibilidade de dormitar uma sesta é nula. O cão, eventualmente, cansa-se. A criança não. Entre baldinhos, redes de pesca, jogos de bola, pinos, rodas, carreirinhas e saltos de ondas (felizmente, havia vento suficiente para impedir a ida de raquetes), não houve nem um segundo para ler o jornal / o livro / contar o número de flexões que o nadador-salvador estava a fazer. Porque as Pessoas Pequenas não param. E comem pouco. Correm, correm, escavam, arrastam-se, criam pistas, fazem castelos e pulam a troco de nada. Não ficam refasteladas depois de correr a pensar: “Ah, o que eu dava agora por umas ameijôas”. Não bebem uma imperial como recompensa depois de uma perseguição mais vigorosa às gaivotas. Quando têm de ir a algum lado, correm. Quando se lembram de alguma coisa, dão um salto. São um motor contínuo de combustão energética que não precisa de muito mais que iogurte e sanduíches de pepino (reminiscência dos Cinco, que a Pessoa Pequena há-de ler daqui a 2 anos, o que a vai fazer gostar ainda mais das minhas merendas piquenicadas). Após 5 horas de observação e de descrença absoluta, percebi que me estava a ser dada uma oportunidade única de fazer 3 ou 4 aulas de spinning seguidas sem ter de lidar com a poça de transpiração do vizinho da bicicleta ao lado. Percebi que não há inibidores de apetite que cheguem aos calcanhares de disputas de bola e fintas com rasteira. Percebi que se defender 10 remates seguidos, faço mais abdominais que no programa da Tracy Anderson. Acima de tudo, senti nos braços que girar uma Pessoa Pequena e lançá-la à água tem inúmeros benefícios para a barriga pelas gargalhadas e para os bíceps pela força centrífuga gerada. Madrastas, o segredo para sermos os seres esbeltos e angulosos que sonhamos é brincarmos com as Pessoas Pequenas que nos calharam em sorte. Brincarmos como se tivéssemos a idade delas. Porque aos 7 anos, nós também éramos umas formigas frenéticas que corriam praia acima e praia abaixo durante o tempo que os nossos pais deixavam. Nós também não ficávamos quietas nem um minuto e não havia areia na toalha que nos incomodasse. Havia desenhos na areia para fazer e peixes imaginários para perseguir. Queríamos lá saber do jornal, o que interessava eram as conchas. A verdade é que, se há lição que podemos aproveitar na nossa condição, é a não ficarmos quietas. A nunca ficarmos paradas. A brincarmos até ser magras. Play Yourself Thin, Madrastas do mundo. E as idas à praia vão correr muito melhor.

os desenhos animados


Qualquer Madrasta sonha em ter uma Pessoa Pequena em casa só para sucumbir ao prazer secreto de voltar a ver desenhos animados de forma descomplexada e sem ter de dar justificações – sim, porque quando se é Madrasta passa a ser necessário dar justificações sobre as coisas mais inesperadas, tipo Porque-é-que-não-foste-dar-um-beijinho-à-Criança-adormecida-quando-chegaste-a-casa-completamente-estourada-às-11-da-noite?-Porque-estava-mais-interessada-em-encher-um-copo-de-vinho-tinto-e-bebê-lo-até-ao-esquecimento. – e assim pelo menos temos uma boa desculpa (leia-se uma desculpa que o Pai da Criança é capaz de compreender) para estar em pijama no sofá ao sábado de manhã a comer cereais e a olhar para a televisão em vez de aproveitar o dia lindo lá fora para fazer Actividades Familiares Revigorantes Ao Ar Livre.
Curiosamente, ver a Anatomia de Grey ou ler o Orgulho e Preconceito não entra na categoria de Actividade Matinal Aceitável Ao Fim-De-Semana. Assim, nós, Madrastas, aceitamos a benção que é poder ficar sossegada a ver desenhos animados e antecipamos longas horas de prazer, risota e cumplicidade.
Isto só acontece, obviamente, porque passámos demasiados anos afastadas da programação infantil e o mundo Disney e Pixar que temos em mente, com breves incursões pelo Meu Pequeno Pónei, é o que achamos que vamos encontrar. Errado.
Preparem-se para puns e fedores; vozes irritantemente esganiçadas e personagens que só podem estar a meio de uma trip de ácido; plots inenarráveis e incompreensíveis; gritaria em geral; músicas repetitivas e irritantes; moralismos bacocos ou maldades puras. Preparem-se ainda para disparos de lasers, tasers e outras coisas japonesas com ar incrivelmente mortal e perigoso. Oh, voltem Tartarugas Ninja, estão perdoadas. Nada é calmo, divertido e feliz no mundo actual dos desenhos animados.
Para a Pessoa Pequena lá de casa, a suprema felicidade foi atingida quando descobriu a minha particular intolerância ao Alvin e os Esquilos. Não sei se conhecem mas aconselho a evitarem, sob pena de nunca, mas nunca mais conseguirem esquecer aquelas vozes anormalmente fininhas, fuinhas e picuinhas que têm como única actividade na sua vida animada cantar! E que mal cantam. E quão agudas são. E tanta capacidade de induzir ataques de fúria descontrolada têm.
Após este brutal choque de realidade, passamos a ser nós a achar estimulante marcar o ginásio, a depilação, o cabeleireiro e a mani+pedi para as manhãs de fim-de-semana. Também existe a possibilidade de sucumbirmos ao espírito saudável e passarmos a andar de bicicleta e de trotineta e de patins. Passamos a ser nós a pedir por tudo, por favor, que não chova e se possa sair de casa. Que não tenhamos de ouvir aquelas vozes nunca mais. E que as Crianças cheguem rapidamente à adolescência para precisarem de dormir e nós podermos voltar a ter manhãs descansadas. 

A arrumação:




As madrastas aprendem cedo que a sala perfeitamente decorada – digna de ser fotografada para qualquer revista de estilo internacional – com que sonharam a vida inteira e que finalmente conseguiram concretizar... só é possível  quando são as únicas habitantes da casa. Infelizmente, se estão categorizadas como madrastas, isso significa que, no mínimo, há mais 2 pessoas em casa e parece que essas duas pessoas têm como missão única na vida a criação de um espaço de caos e desordem, onde a vida se possa gerar espontaneamente ou onde os criadores de “onde está o Wally?” se sintam perdidos e queiram voltar para os úteros das mães.
As Pessoas Pequenas foram programadas para desarrumar e a maior parte das Pessoas Crescidas Que Por Acaso São Homens parecem nunca ter recebido qualquer tipo de formação para inverter esse programa. Por isso nós, as Madrastas Minimalistas, ficamos com uma casa de pantanas depois de todos os fins-de-semana com que lidar. Hoje, por exemplo, encontrei uma seta pregada numa das estantes, qual aviso territorial de propriedade. Há ténis de rodinhas na cozinha (?), um crocodilo na banheira (??), e não vou sequer começar a tentar perceber a máscara do homem-aranha que apareceu miraculosamente no meio dos sapatos no closet.
Acontecem dois fenómenos curiosos quando partilhamos a casa com Pessoas Desarrumadas, Grandes ou Pequenas: a primeira, é que o ao grito “QUEM É QUE DEIXOU ISTO AQUI????” só se obtém um silêncio profundo e absoluto, irrepetível noutras circunstâncias; ao mesmo tempo que vemos seres humanos convencidos que são camaleões, acreditando que se vão fundir com o sofá ou a parede, evitando assim o confronto e óbvia derrota.
A segunda é que, por cada coisa que conseguimos fazer arrumar (e o único método funcional que consegui encontrar até agora consiste em repetir o mesmo pedido, com a mesma formulação, em tom crescentemente audível, até a vizinha de cima ter vontade de vir cá abaixo pôr as malditas meias no cesto da roupa suja só para não me ouvir), há mais 3 coisas que aparecem espalhadas no momento seguinte, e que não estavam lá antes. Parece que precisam de desarrumar muito para arrumar uma coisa. É o milagre da multiplicação combinado com a teoria do caos, com o único intuito de nos enlouquecer, a nós, as pessoas que acreditavam não ser como as mães e que dão por si a repetir fórmulas velhinhas, que devem vir do tempo das cavernas, quando a primeira Criança deixou a primeira pele de antílope atirada para cima da primeira pedra errada.
Por isso, aquele momento à segunda-feira em que se entra em casa e ainda não chegou ninguém e a empregada acabou de ir embora e tudo cheira bem e está no sítio provoca lágrimas e uma necessidade absoluta de fotografar, só para nos lembrarmos que o sonho está vivo, a sala existe. Nós é que nem sempre a conseguimos ver.

O almoço de domingo:


As Madrastas, independentemente de serem sempre um membro estranho à família (a não ser que sejam bem mais velhas e existam nessa categoria há muito mais tempo que a relação que deu origem às Pessoas Pequenas da nossa vida), têm de participar nas actividades tradicionais que valorizam socialmente um “casal” e que comprovam as suas capacidades femininas e as suas habilidades domésticas.
A expressão máxima desta validação é o Almoço de Domingo.
O Almoço de Domingo é uma instituição algo obsoleta, porém de enorme peso junto à população mais velha – vulgo Pais e Avós do Ser Humano Adorável Porém Exasperante Que Nos Informa Sobre a Vontade de Existência do Almoço Com Ar Irresistível – que gosta de ser recebida como manda a tradição, apesar de passar o dia subsequente a comentar “Ai que trabalheira; Ai está tão cansada; Ai que não era preciso”.
É preciso. É preciso fazer um almoço fenomenal e ter lanche e jantar a postos caso a agradabilidade da sala e da casa façam a sua magia e os Pais e Avós se deixem ficar. É preciso fazer sempre algo novo e entusiasmante, porque não fazemos ideia das capacidades culinárias da nossa antecessora e a comparação é uma cabra, anda sempre à espreita. Para prevenir embaraços e eventuais comentários desagradáveis, há um truque muito simples: ser espectacular. Ter tudo pensado e bem estruturado. Oferecer uma experiência inesquecível e um menu coerente e delicioso, mesmo que isso implique que acordemos em total ressaca e comecemos a cozinhar às 9 da manhã. Acima de tudo, mesmo que seja a última coisa que nos apeteça, sorrir sempre e responder que está tudo bem, mesmo que a cozinha esteja a pegar fogo porque caiu um pedaço de pão na torradeira que está em total combustão e a espalhar cheiro a queimado.
É um prazer receber quem deu origem à pessoa de quem gostamos, ainda que essa presença venha sempre com sugestões sobre os locais onde devíamos ter as plantas para apanharem mais luz; sobre os candeeiros que ficavam melhor na nossa sala; sobre a inaceitabilidade da cama em que a Criança dorme; à distância da sala de jantar à cozinha que não é nada prática; ao quanto devíamos ter um outro serviço de pratos; à falta que nos faz a Bimby ou a máquina de lavar louça; e tantos outros reparos bem-intencionados que somados no fim do dia dão uma belíssima dor de cabeça e vontade de partir para a ilha do náufrago sem bola de volley, porque não aguentamos sequer a presença simulada de outro ser humano à nossa volta.
O Almoço de Família é muito mais que uma refeição, são umas horas de interacção social de equilíbrio difícil entre a vontade de fazer feliz quem mais gostamos, o respeito que devemos a quem sabe e existe há mais tempo que nós, e a nossa personalidade, essa entidade segura que sabe muito bem quando está quase a dar um grito de revolta e manda o corpo enfiar a cabeça no congelador para arrefecer um bocadinho as ideias e manter a compostura.
Sim, Madrastas, quem manda nos Almoços de Família são os Avós. Até na pobre Pessoa Pequena, que recebe tanta ordem e contra-ordem e ouve tantas críticas que olha para nós com ar desesperado em busca de apoio e só lhe podemos oferecer uma piscadela de olhos de apoio e fazer muitos mimos no momento em que todos se vão embora e ela pode voltar à normalidade. Ao que realmente interessa. Ao nosso mundo, a 3, tão difícil de equilibrar, que tem de resistir a estas excursões turísticas e deitar fora toda a informação inútil recebida e manter o seu eixo e a sua forma de existir. De tal forma que só aguenta 2 ou 3 almoços destes por ano. Senão a força de centrifugação atira-o para fora do nosso universo de vez.